Ottepel Restaurant: segredos da cozinha russa

Durante nossa jornada por Moscou, no final do ano passado, conhecemos quase por acaso um dos melhores restaurantes do país, onde você come estrogonofe de verdade

(Fotos por Paulo Mancha – exceto quando identificado)

Parmesolino no Museu da Cosmonáutica

Uma viagem sem surpresas não é uma viagem completa. Melhor ainda quando as surpresas são boas – e saborosas.

Foi o que aconteceu comigo na mais recente visita à Rússia (veja a reportagem completa aqui).

Num dia meio chuvoso, após visitar o Museu da Cosmonáutica, no gigantesco Parque VDNKh (também conhecido como “Centro Panrusso de Exposições”), optamos por almoçar ali mesmo, em um pequeno restaurante do próprio parque, escondido no meio das árvores.

O nome: “Ottepel”. Que lugar delicioso…

Restaurante Ottepel – Moscou

Pesquisando, descobri o ele é assim chamado em homenagem ao período histórico conhecido informalmente como a era do “degelo” (“ottepel”) logo após a morte de Stalin, em 1953.

Para quem não sabe, o obscuro líder foi renegado pelo sucessor, Nikita Khrushchov, e grandes mudanças ocorreram. O sistema comunista continuou, mas houve uma notável flexibilização na sociedade, com mais liberdades, menos propaganda estatal e uma maior abertura para os costumes do Ocidente.

O ambiente reflete isso, lembrando vez por outra os cafés parisienses, com garçons e garçonetes bilíngues, que usam aventais inspirados em Mondrian.

Sem falar no logotipo: um automóvel Gaz Chaika – o carro mais chique e glamoroso produzido na União Soviética, totalmente oposto aos espartanos e simplórios Lada, por exemplo.

Detalhe: o prédio em si já é arquitetonicamente diferenciado. Na década de 1950, era uma espécie de showroom da tecnologia têxtil soviética e, por isso, precisava encher os olhos dos visitantes estrangeiros que lá fossem negociar tecidos.

Mas e a comida?

Bom, comecemos dizendo que o Ottepel é um restaurante várias vezes premiado. O menu (com versões em inglês) tem muita coisa internacional, como bruschetas, gaspacho e até guacamole.

Mas esqueça essas opções. O lado bom do Ottepel é seu caráter inovador, transformando alguns pratos simples dos países da antiga União Soviética em alta cozinha internacional.

Chef Andrei Mamontov

Tudo obra do jovem chef Andrei Mamontov, que fez misturas criativas como a galinha com batatas e adjika – um molho picante e com sabor muito peculiar, originário da região da Abcásia.

Ou, ainda, a okroshka, uma sopa fria à base de caldo de pão fermentado, que neste restaurante é servida com pastrami. Fantástico!

Eu iniciei com o pelmeni, uma espécie de “capelletti russo”, que pode ser servido de várias formas (veja este post em que eu preparo o pelmeni durante uma aula de culinária em Moscou).

No meu caso, pedi o pelmeni ensopado, com ervas e smetana (o sour cream russo), acompanhado de frutas vermelhas. Mas há opções também de pelmeni com caviar e camarões (eu não quis porque sou alérgico).

Pelmeni… hummm!

Depois, fui no prato mais tradicional de todos: o estrogonofe (ou “bef stroganov”, como eles chamam) e tive uma experiência sublime. Não tem nada a ver com a receita usada no Brasil.

O molho do legítimo estrogonofe russo é feito à base de creme de leite, mostarda e cogumelos selvagens macerados (nem pense em colocar ketchup – arghhh!). E serve-se com puré de batatas temperado e bem consistente, para contrastar.

O melhor estrogonofe que já comi!

As sobremesas são menos criativas, mas igualmente saborosas. Eu fui naquela batizada com o nome da casa, “Ottepel”: mousse de chocolate com praliné de framboesa.

Vinho Kuban

Para beber, o Ottepel tem uma honesta carta de vinhos, em que a maior parte das opções se origina na França, na Itália e na Alemanha.

Mas oferece bons brancos austríacos, além de uma raridade: os vinhos russos Kuban. Trata-se de uma vinícola fundada em 1956 na árida Península de Taman, perto da Crimeia, na mesma latitude de Bordeaux, como fazem questão de frisar. Seus tintos, brancos, rosés e espumantes eram presença certa nos banquetes da elite soviética nos tempos da Guerra Fria.

Há também uma extensa lista de drinques internacionais, outros com vodcas locais, além de alguns sucos e refrigerantes.

Se você quer uma experiência realmente russa, a opção não alcoólica é o kvass, a “coca-cola russa”, como é conhecido. Na verdade, não tem nada a ver com o refrigerante americano, a não ser pela cor escura. Kvass é um refrescante e borbulhante fermentado de pão. Sim, é isso mesmo! Parece estranho, mas no segundo gole, eu já estava apaixonado por essa bebida.

O total da minha conta deu 2300 rublos – o equivalente a R$ 150. Sim, não é exatamente “barato”, mas vale muito a pena, pela experiência única.

Na minha opinião, o Ottepel é parada obrigatória para quem vai a Moscou. Até porque o próprio Parque VDNKh é um dos lugares imperdíveis da capital russa.

CONFIRA UM VÍDEO DO RESTAURANTE:

Ottepel Restaurant
Prospect Mira 119, Pavilion 311, Moscow, Rússia, 129223

  • Para crianças? Tem cardápio infantil
  • Romântico? Sim
  • Formal? Não
  • Ambiente (de 1 a 10): 10
  • Gastronomia (de 1 a 10): 9
  • Carta de vinhos (de 1 a 10): 7
  • Hospitalidade(de 1 a 10): 8

Dica do Parmesolino:

Esse lugar é pra ir a qualquer hora do dia, nem que seja só para beliscar e tomar um chá ou umas biritas no jardim, batendo papo e curtindo a beleza do parque. Não façam como o humano guloso, que entrou, comeu que nem um esfomeado e foi embora…

Saiba mais: Ottepel Restaurant

Viagem a convite do DISCOVER MOSCOW


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