Especial Chile – 2: Travessia de Lagos

Cada vez mais brasileiros se aventuram pelos lagos andinos, na incrível travessia que leva de Pucón, no Chile, a San Martin de Los Andes, na Argentina

Texto: Paulo Mancha D’Amaro Fotos: Paulo Mancha/Jaime Borquez/divulgação

Você muito possivelmente já ouviu falar na “Travessia de Lagos”, o roteiro turístico que há muito tempo leva viajantes do Chile para a Argentina – mais especificamente de Puerto Montt a Bariloche. Tudo bem, é um passeio bacana. Assim como bacanas também são essas duas cidades.

Mas se você estava sentindo falta de algo diferente para os lados dos Andes, então pode fazer as malas. Lançado em 2011, o “Nuevo Cruce de Lagos” está deixando as antigas rotas no passado… O segredo está no ineditismo dos pontos de partida e chegada.

A jornada começa em Pucón, cidade chilena às margens do lago Vilarrica e pertinho do vulcão de mesmo nome, indo terminar em San Martin de Los Andes – a “Bariloche do Século 21”, como muitos costumam dizer na Argentina.

Entre as duas cidades, um caminho delicioso, repleto de bosques, lagos, montanhas e pequenos hotéis. O trajeto entre as duas cidades leva cerca de 11 horas, já contando os trechos terrestres, de navegação e as passagens pelas alfândegas – sim, existem postos aduaneiros de ambos os países bem no meio do nada. Ou “quase” nada, já que a divisa fica num bosque cortado por uma trilha de terra.

Mas ninguém viaja para experimentar um passeio de menos de um dia. Além do belo visual proporcionado pela travessia em si, o bacana é curtir as extremidades da jornada.

Por isso, reserve um tempinho para desbravar Pucón, no Chile, e San Martin de Los Andes, na Argentina. Pelo menos uns três dias cada – assim, você terá uma semana completa de emoções na região andina.


PUCÓN – CALMA À BEIRA DO  VULCÃO

Com certa liberdade, pode-se dizer que Pucón é a versão chilena – e menorzinha – de Campos do Jordão, a Meca do inverno em São Paulo. Ou seja, exibe casario em estilo europeu, um centrinho comercial elegante e jovens explorando a noite durante a alta temporada. A diferença é que Pucón tem neve de verdade.

E mais: um vulcão na paisagem, além de estação de esqui, cassino e um grande lago que a envolve. Ok, desculpe, Campos do Jordão…

Nesta cidade de apenas 21 mil habitantes, a primeira tentação é visitar as lojas de artesanato no simpático centrinho. Ali você se depara com os intricados artefatos manufaturados pelos  mapuches, nativos que habitavam as montanhas antes da chegada dos colonizadores espanhóis.

Também há uma boa oferta de lojas de grife, bares descontraídos e restaurantes agradáveis, em que se pode degustar desde mariscos com camarão até avestruz e saborosos grelhados de cordeiro – aliás, o prato típico da região. Um dos melhores para isso é o La Maga, que, apesar de se autointitular um restaurante de “parrilla uruguaia”, serve boas opções da culinária local.

Bem perto fica a estação de esqui, a 18 quilômetros, acessível por uma estrada de montanha com curvas fechadas e belo visual. Situada na encosta do Vulcão Villarrica, seu cume atinge 1480 metros de altitude. Não é uma das mais badaladas em termos esportivos, mas proporciona uma vista inigualável dos lagos da região, sobretudo o Villarrica e o Calafquen.

A região do Vulcão Villarrica inclui outras atrações, como o Parque Nacional Huerquehue — excelente para os fãs de caminhadas na natureza. Uma densa vegetação de montanha é cortada por trilhas com muitos níveis de dificuldade.

Do alto das montanhas desse parque, vê-se o Lago Caburgua – formado há dez mil anos graças ao degelo da Cordilheira dos Andes. Ele tem praias de cinzas vulcânicas, uma vegetação peculiar, baseada nos coigues – árvores com mais de 30 metros de altura – e também nos digüeñes – fungos coloridos que são usados na gastronomia da região.

Mas essa natureza toda não significa ausência de sofisticação. A região do Lago Villarrica tem excelentes opções de hotéis. A começar pelo Vila Rica Park Lake, perto do vulcão. O hotel oferece 70 quartos com uma vista absolutamente encantadora do Lago de mesmo nome. Sem contar o Spa Aquarius, especializado em terapias com água, e do restaurante Águas Verdes, de culinária internacional. Tudo com padrão de serviço digno dos resorts internacionais mais renomados.

Mais intimista, ainda que igualmente excelente nos serviços, é o Hotel y Termas Huife. Ele fica a meia hora da cidade, nas imediações do Parque Nacional Huerqueue e às margens do Rio Liucura. O destaque são as quatro piscinas térmicas, com água de origem vulcânica que chega das profundezas a agradáveis 30 graus. E também as terapias do spa, que incluem até banhos de chocolate.

As acomodações, em forma de simpáticos chalés, também contam com banheiras subterrâneas, que se aproveitam da água termal. Por sinal, os chalés ficam tão debruçados sobre o rio e dorme-se com o bucólico som da correnteza a poucos metros de distância.

O curso d’água emoldura o cenário também para quem está no restaurante, com suas janelas envidraçadas. Nos dias mais frios, vislumbra-se o vapor emanando das piscinas, enevoando a paisagem e conferindo um tom místico que poucos lugares no mundo têm.


TRAVESSIA POR LAGOS E NEVE

Uma vez que você conheceu Pucón, é hora de botar o pé na estrada (e na água) rumo a San Martin de Los Andes, na Argentina. A nova travessia é operada pela empresa In Out Patagônia, e envolve trechos rodoviários e de navegação em lagos.

A viagem começa por terra. Um ônibus rodeia lugares repletos de bosques em Lican Ray e na borda do lago Panquipulli. Uma paradinha para ver Huilo Huilo é providencial. Trata-se de um salto de rara beleza, com águas que caem de mais de 40 metros, explodindo sobre as pedras.

Transformado em “Reserva Biológica” pelo governo chileno, Rufio Mulo é um lugar mágico, com acesso até de crateras de vulcões extintos e lagos de montanha escondidos. Próximo, despontam na mata duas construções absolutamente surpreendentes.

Pairando no alto do bosque esta o hotel Baoba. Feito em madeira, com uma arquitetura sai generis, lembra uma enorme casa na árvore. Ele tem 55 quartos interligados por um corredor em forma de espiral. No térreo, o restaurante Fica sobre um riacho. E, para coroar a inventividade da obra, uma claraboia gigante permite a passagem da luz do Sol e do luar. Por sinal, ele também dá vistas para os vulcões Mocho y Choshuenco.

A outra construção improvável é o Hotel Montanha Encantada, que mais lembra uma casa de conto de fadas. É recoberto de vegetação nativa, com umaa cascata jorrando desde o alto do prédio, escorrendo por entre as janelas dos quartos. A despeito da aparência rústica, oferece spa, piscinas térmicas, jacuzzis, ofurôs, sauna e serviço de massagem.

Tanta atenção quanto esse hotel, só a vizinha fábrica de cervejas artesanais Petermann consegue atrair. Um deleite para a vista e para o paladar.

O mais interessante é que todas essas atrações ficam próximas entre si e podem ser apreciadas de forma rápida. Assim, menos de três horas depois da saída de Pucón chega-se a Puerto Fuy, uma diminuta localidade à beira do Lago Pirihueico, último reduto habitado do Chile nessa jornada.

É daqui que sai o barco em direção à divisa com a Argentina — cerca de 26 quilômetros lago adentro. Mas, antes de navegar, vale a pena pernoitar ou até mesmo gastar alguns dias neste recanto de paz e contemplação.

Neste lugar, fica o delicioso Marina Del Fuy, hotel com 22 quartos com vista para o lago e para as montanhas nevadas. Ele oferece o melhor da gastronomia típica patagônica e uma carta de vinhos que certamente agrada os enólogos. É um dos mais charmosos lodges de todo Chile, 100% construído em madeira e ornado com antiguidades.

E mais: graças à localização, o Marina Del Fuy se especializou em esportes da natureza — do caiaque à cavalgada, passando pelo mountain bike e pelo trekking de altitude. O ferry boat, que faz a primeira parte da travessia, parte da prainha em frente ao Marina Del Fuy.

No percurso de uma hora e meia pelo Lago Pirihueico — o primeiro dessa travessia -, o visitante testemunha as intocadas florestas de carvalho e pinheiros, além de encostas nevadas e animais imponentes — inclusive os condores. Ao chegar em Puerto Pirihueico, um novo trecho motorizado conduz, por uma trilha no meio da floresta, à fronteira entre o Chile e a Argentina.

A fronteira fica no chamado Passo Hua Hum — um dos raríssimos locais de baixa altitude da Cordilheira dos Andes, com apenas 650 metros acima do nível do mar (menos que São Paulo, por exemplo), uma passagem ideal entre os países, mas que quase nunca foi usada devido à dificuldade de alcançá-la por terra.

Enquanto os lagos que a cercam eram considerados “obstáculos”, o Passo Hua Hum ficou esquecido. Agora que eles viraram atração turística, a fronteira tende a se popularizar.

Como nada é perfeito, os postos aduaneiros e de imigração de ambos os países fazem jus ao passado de esquecimento e abandono deste lugar: burocráticos e precários — nem sequer um sanitário decente é oferecido. Coisas da América Latina…

Esse pequeno inconveniente, porém, não empana o brilho da travessia. Fato evidenciado no olhar de agrado dos turistas quando encontram o Muelle Hua Hum, uma hospedaria cravada na borda do Lago Nonthué, já em território argentino.

Esse fiorde florido e idílico parece tirado de um filme, tal a perfeição do cenário. É no píer defronte ao pequeno hotel que se inicia a última parte da travessia. Torna-se a lancha Patagónia I, um barco moderno e rápido, que desliza com maestria pelo Lago Nonthué, até sua ligação com outro maior, o Lacar.

São duas horas de navegação por entre montanhas e ilhas. Uma delas, chamada Santa Teresita, merece uma paradinha: ela abriga uma improvável capela, que intriga a todos. Afinal, este é um dos lugares mais desertos e inacessíveis da América do Sul.

E ninguém sabe ao certo porque o templo ali foi erguido. A navegação termina no pequeno porto de San Martin de Los Andes — a cidade da moda quando se fala em turismo de inverno nas terras de Maradona.


SAN MARTIN DE LOS ANDES: JOVEM GLAMOUR

“A nova Bariloche”. É assim que muitos argentinos definem San Martin de Los Andes, a jovem cidade andina situada na nas margens do Lago Lacar, na província de Neuquén.

Com uma população de 30 mil habitantes, ela é base para atividades ao ar livre: caça e pesca, caminhadas, camping, escalada, rafting e agroturismo.

Também oferece cassino, discotecas e restaurantes de primeira linha. E o mais importante: está a alguns minutos do desafiador vulcão Lanin e do Cerro Chapelco, uma das mais bacanas estações de esqui da América do Sul.

Encravada no fundo de um vale, a cidade é plana e fácil de desbravar. Quase tudo fica nas imediações da rua San Martín, a principal artéria de circulação, que leva ao pequeno porto no Lago Lacar.

Há um centro cívico, agências de turismo e lojas — muitas lojas. Ali se acha desde marcas internacionais de artigos de inverno, como a North Face, até as pequenas lojas de artesanato, como a Artesanias Neuquenas, baseada numa cooperativa de artistas andinos.

Sem falar nas chocolaterias. Obrigatório dar uma passadinha na Abuela Goye. Além dos doces, pode-se provar e comprar as cervejas andinas, inclusive as variedades com mel, cassis, framboesa e, claro, a cerveja achocolatada.

Por falar em doces e bebidas, um passeio imperdível em San Mania é subir a montanha vizinha à cidade até a Casa de Chá Arrayan. Não bastassem as dezenas de variedades de infusões importadas do mundo todo e os bolos e tortas típicos feitos na hora, esse estabelecimento ocupa um local ultraprivilegiado.

A 300 metros acima da cidade, a Arrayan tem vista panorâmica para ela própria e também para o lago Lacar. É tão procurada que acabou virando pousada — uma das mais disputadas, em San Martin de Los Andes.

Seja no alto da montanha ou no sopé, a gastronomia é outro ponto forte. São mais de 20 restaurantes, a maioria especializados em carnes argentinas. Alguns, como a Posta Criolla, exibem logo na entrada o prato típico, chamado de cordero al palo — um churrasco de cordeiro na estaca, assado numa fogueira campestre.

Outros, mais refinados, têm iguarias originárias dos lagos andinos. É o caso do El Regional, com sua truta defumada ao aipo. Por sinal, o El Regional também serve carnes mais exóticas, como javali, e receitas à base dos cogumelos da região.

Para quem gosta de jogar, existe o Cassino Magic, uma filial do cassino integrado ao Hotel Magic, na cidade de Junin de los Andes. Aos fins de semana, lotam-se as quatro mesas de black jack, as duas de poker e as seis roletas – sem contar as 125 caça-níqueis.

Mesmo quem não joga se diverte por ali: o Pub Ases y Reyes serve drinques, petiscos e tem apresentações de música ao vivo quase todos os dias.

Nem tudo de interessante fica na área urbana, contudo. Conforme se toma a principal estrada da região, a Ruta 234, a paisagem montanhosa enche a vista, com a dramaticidade característica dos Andes. Ela culmina em Chapelco – um ski resort, a 19 quilômetros do centro.

No alto da montanha de mesmo nome, esta estação de esqui chega a quase 2000 metros de altitude. Com 22 pistas de vários níveis de dificuldade, é considerado um dos melhores pontos de prática de esportes de neve na América Latina. E mais: oferece uma deslumbrante vista ao lago Lacar, dos bosques e do vulcão Lanin.

Os fãs de esqui adoram Chapelco porque ali existe a possibilidade de praticar modalidades diversas: alpino, de fundo e de travessia. Há também pistas de snowboard, com half pipe, slalom. Sem contar os passeios em snowmobile e, acredite, naqueles simpáticos trenós antigos, puxados por cães da raça husky siberiano.

Com tantas opções de lazer, gastronomia e consumo, San Martin de Los Andes é daqueles lugares que dá pena ir embora. No roteiro da Nova Travessia de Lagos, parte-se dela em direção ao lugar onde a jornada se iniciou: a chilena Pucón. Não são poucos os que, lá chegando, ficam tentados a começar tudo de novo. Faz todo sentido.

Mais informações: www.inoutpatagonia.cl

3 comentários em “Especial Chile – 2: Travessia de Lagos”

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