De carro pelo Texas – Parte 1/3: Austin

Veja como foi minha viagem de 1.300 km pelas principais cidades do estado da estrela solitária. Uma jornada com inigualável sensação de liberdade, digna dos melhores road movies…  Aqui, a primeira parte dela!

Texto e fotos: Paulo Mancha

Brasileiro é apaixonado por carro, já dizia um antigo comercial de TV. Se estiver em um lugar em que as ruas e estradas são perfeitas, dirigir se torna uma grande diversão. Nos Estados Unidos, é assim.

E foi por isso que decidi fazer uma road trip pelo segundo maior estado do país. Foram 1300 km em 7 dias, passando por Austin, Dallas e Houston. Com direito a conhecer muita coisa bacana no trajeto entre essas três metrópoles.

Comecei minha jornada logo ao desembarcar, numa manhã de quinta-feira no Aeroporto Intercontinental George Bush, em Houston. Decidi deixar a maior cidade do estado para o fim da viagem. E, desta forma, cai na estrada rumo ao oeste. Destino: Austin, a capital do estado, famosa pela vida noturna, pela música e pelo jeitão liberal.Alugar um carro nos aeroportos americanos é algo para lá de simples, que eu já expliquei neste post. Menos de 15 minutos após passar pela imigração eu já estava no balcão da Hertz, com as chaves de um Toyota Corolla nas mãos. E em mais 20 minutos, estava fora da área urbana, na ampla rodovia interestadual 10 (I-10).

Eu poderia ter tomado um caminho um pouco mais curto, de 280 km por uma autoestrada federal, mas optei por esse por um motivo muito razoável: as atrações do meio do caminho.

Sim, nos Estados Unidos, nem sempre a forma mais rápida de chegar é a mais bacana. Meu conselho é: esqueça o relógio e perca-se pelas cidadezinhas do interior, onde sempre tem algo legal para ver. Foi o que fiz.

Texas, com jeito de Europa

Minha primeira parada foi na pequena Ellinger, onde 104 anos atrás se estabeleceu a Hruska’s Bakery. Essa antiga padaria, que com o tempo virou também restaurante e loja de suvenires, exemplifica algo que pouca gente sabe sobre o Texas: não é apenas “terra de cowboys”.

A Hruska’s faz parte da herança trazida pela imigração tcheca. “Tcheca?”. Exato. Viajando pelo interior do estado você verá muitas referências ao país da Europa Central, sobretudo na culinária. Ai mesmo, na Hruska’s, todo mundo se delicia com as kolaches – um doce típico mezzo tcheco, mezzo austríaco, muitíssimo comum nessas bandas.

Vinte quilômetros à frente, me deparei com a cidadezinha de La Grange, imortalizada em uma canção da banda de rock-country ZZ-Top. Impossível não parar para admirar (e, possivelmente, comprar) o artesanato da Los Pinos Import, que se espalha pela beira da estrada.

A mesma estrada que leva à maior atração dessa região: o Parque Estadual Monument Hill. Vale uma parada para admirar a belíssima vista do Vale do Rio Colorado, com suas pontes grandiosas.

Sem falar no interessante museu sobre a conquista militar desse então inóspito rincão mexicano, no Século 19, e nas ruínas de uma das mais antigas fábricas de cerveja dos Estados Unidos, a Kreische Brewery, construída em 1860 por imigrantes alemães (não falei que tem muito mais do que cowboys por aqui?).

Eu poderia ter parado em muitos outros locais, mas decidi seguir viagem para uma das mais instigantes cidades texanas: Austin.

Austin, a capital liberal

Talvez você não tenha ouvido falar muito dela. Afinal, não é nem a maior, nem a mais famosa, nem a mais turística metrópole do estado. Mas é a mais esquisita… no bom sentido! O lema oficial do município é “The Live Music Capital of the World” (“A Capital Mundial da Música ao Vivo”). Mas o slogan que os moradores adotam extraoficialmente é “Keep Austin Weird” (“Mantenha Austin Estranha”), pois se orgulham de ser um contraponto ao conservadorismo republicano e ao estereótipo country que os cercam.

Austin é uma cidade liberal, inovadora e, até certo ponto, tresloucada. Uma parte de seus 900 mil habitantes é formada de estudantes, já que ali fica o maior campus da Universidade do Texas. Só isso já garante o clima jovem por todas as esquinas.

Malas deixadas no hotel, minha primeira parada foi um estádio esportivo. Sei que parece estranho, mas, se em Roma devemos fazer como os romanos, no Texas, pense e aja como um texano.

E o Vaticano daqui se chama Darrell K Royal-Texas Memorial Stadium. É nesse “solo sagrado” que joga o time de futebol americano da Universidade do Texas – a grande paixão dos austinianos.

Estádio dos Texas Longhorns

Mesmo que você não entenda nada desse esporte – que é uma religião por aqui -, vai se encantar com a visita guiada ao estádio de arquitetura imponente, inaugurado em 1924 como um monumento aos estudantes texanos mortos em combate durante a Primeira Guerra Mundial.

Mais do que as enormes arquibancadas para 101 mil espectadores, ele apresenta um incrível acervo de esculturas, pinturas, gravuras e murais inspirados no esporte em geral (não só futebol americano). Uma espécie de “galeria de arte esportiva”, como não se vê em quase nenhum outro lugar do mundo.

Ali pertinho fica outro ponto alto de qualquer visita a Austin. É a LBJ Library, o suntuoso museu batizado em homenagem ao presidente Lyndon Johnson (1908-1973), que nasceu nas imediações da metrópole.

Se você gosta de história, vai se entreter por horas no gigantesco acervo de 45 milhões de documentos referentes a um dos mais turbulentos períodos da geopolítica mundial. Um tempo que se iniciou com o assassinato do presidente Kennedy, em 1963, e culminou com a Guerra do Vietnã, no final da década.

LBJ Library

Não deixe de tirar uma foto junto da belíssima limusine presidencial, exposta junto à loja do museu. Por falar nela, onde mais no mundo você acha bonequinhos bobble head de Obama, Hillary Clinton ou Donald Trump? Pois é, na “estranha” Austin, até a política vira diversão.

Reduto da Fórmula 1 nos EUA

Meu passeio pela cidade seguiu tarde adentro pelo imponente State Capitol – o edifício sede do governo, que lembra o capitólio de Washington -, pelo instigante Museum of the Weird (“Museu do Estranho”) e pelo belo Texas History Museum.

À noite, a pedida é vagar pela 6th Street. São centenas de bares e casas de shows que fazem jus ao slogan de “Capital Mundial da Música ao Vivo” (lembra?). Eu, no entanto, preferi experimentar a gastronomia tex-mex do descolado bairro apelidado de Soco (diminutivo de South Congress, assim chamado por ser cortado pela porção sul da Congress Avenue). Ali, devorei as picantes guloseimas do Torchy’s Tacos, uma verdadeira instituição de Austin. Recomendadíssimas!

De volta ao hotel, vale uma menção honrosa ao Kimpton Van Zandt, que encarna o espírito inovador de Austin. Jovem, elegante, festivo… Não há opção de hospedagem mais bacana na cidade sede do Grande Prêmio dos Estados Unidos de Fórmula 1 (veja reportagem que fiz sobre esse hotel).

Eu falei em Fórmula 1? Pois um dos passeios mais bacanas em Austin é desvendar o Circuit of the Americas, onde todos os anos, em outubro, é realizada a etapa americana da categoria. Há uma visita guiada que vale muito a pena, porque o autódromo é um dos mais bonitos já construídos (os pilotos da categoria o adoram).

A maioria das vinte curvas dele foi inspirada em outros circuitos mundo afora. Até o “S do Senna”, de Interlagos, está representado.

Se isso não lhe convenceu, saiba que só a incrível torre de observação de 77 metros de altura já valeria a viagem, por seu design futurista e pela estonteante visão de 360 graus que se tem lá do alto. Ah, e o chão é de vidro – quem tem vertigem ou medo de altura deve evitar. Para quem não tem, é obrigatório.


Em breve, as partes 2 (Dallas) e 3 (Houston)!