De carro pelo Texas – Parte 2/3: Dallas

Veja como foi minha viagem de 1.300 km pelas principais cidades do estado da estrela solitária. Uma jornada com inigualável sensação de liberdade, digna dos melhores road movies…  Aqui, a segunda parte!

Texto e fotos: Paulo Mancha

Comecei minha jornada em Austin, a capital do estado, como você pode ver no primeiro post desta série.

Saindo de lá, a próxima parada para dormir seria em Dallas. Mas, claro, eu não segui direto para lá. Tinha que fazer algumas paradas no meio do caminho – porque para isso serve uma road trip!

Melhor assim: minha escapada mais longa foi em Waco, cidade de 100 mil habitantes a 180 km de Austin. Ali, há duas atrações bastante divertidas.

A primeira é o Texas Ranger Hall of Fame & Museum. Trata-se de um museu muito caprichado, dedicado à polícia montada do Texas. Ou seja, àqueles policiais bem peculiares, que você pode ver em filmes antigos, perseguindo bandidos a cavalo.

Parmesolino curtindo o Texas Ranger Hall of Fame & Museum

Uma vez dentro do museu, deparei-me com uma interessantíssima exposição sobre a evolução dos revólveres e espingardas desde o século 18 até os dias de hoje, assim como painéis que mostram como progrediram os métodos de investigação de crimes ao longo dos tempos.

O mais bacana, no entanto, é poder conhecer trechos de algumas das mais célebres histórias de combate ao crime do país, inclusive as que inspiraram filmes e livros. Como a do casal Bonnie e Clyde, que eram texanos e protagonizaram fugas impressionantes durante a década de 1930, sempre com os Texas Rangers em seu encalço.

Menos de 15 minutos depois de sair do museu da polícia montada, cheguei a um recanto turístico ainda mais instigante. É o Waco National Mammoth Monument, um sítio arqueológico e paleontológico de primeira linha.

Ali, em 1978, foram achados os fósseis de uma manada de mamutes-de-Colúmbia, animal extinto há mais de 11 mil anos. Aparentemente, eles morreram juntos, em uma grande enchente que assolou a região.

Junto aos esqueletos reconstruídos dos mamutes, ficam expostos diversos outros animais extintos achados ali por perto, como um tigre-de-dente-de-sabre, um jabuti gigante e o mais inacreditável: um camelo. Sim, existiam camelos na América do Norte até cerca de 10 mil anos atrás.

National Mammoth Monument

Como eu disse antes: parece que toda cidadezinha à beira das freeways americanas tem uma surpresa esperando pelo turista incauto…

Dallas e suas histórias

Apenas 150 km adiante, pela excelente rodovia interestadual 35 (I35), fica Dallas. Na verdade, a região apelidada de “DFW”, que inclui as vizinhas Arlignton e Forth Worth. Juntas, elas formam a maior área metropolitana do Texas. E um extenso agregado de atrações turísticas.

Minha ideia nessa road trip era fugir um pouco daquele estereotipo texano do cowboy rural. Mas, em Forth Worth, isso é impossível. Foi legal conhecer o Stockyards National Historic District, um bairro repleto de construções centenárias, tombadas pelo patrimônio histórico dos Estados Unidos, onde antigamente os cowboys se reuniam para negociar gado.

Stockyards National Historic District

É uma viagem ao passado. Duas vezes por dia (às 11h30 e ás 16h00), um rebanho de bois do tipo longhorn (com chifres imensos) cruza as principais ruas em uma alegre parada. O casario tem aspecto de saloon do velho oeste, não faltam lojinhas de suvenires, butiques, restaurantes e bares onde a música corre solta à noite, criando um clima perene de festa.

E Forth Worth tem ainda atrativos incomuns, como o Museu dos Criadores de Gado e o Museu e Hall da Fama das Cowgirls. Se essa é a sua pegada, vá em frente e divirta-se muito.

Dallas, por sua vez, é mais contemporânea e multicultural. Malas deixadas no hotel, comecei literalmente por cima minha exploração: fui diretamente ao mirante GeO-deck, no topo da Reunion Tower.

Reunion Tower

Essa construção inaugurada em 1978 tem 171 metros de altura. Lá no alto, o observatório se divide em três andares, onde há também restaurante e uma bar descolado, chamado Cloud 9.

A vista é impressionante. Como Dallas fica numa planície, para qualquer lado que você olhe dá para avistar construções, avenidas e estradas a muitos quilômetros de distância. O mais bacana, contudo, é apreciar os grandes edifícios do centro ao pôr do sol, quando a iluminação começa a se acender e um colorido muito especial domina o panorama.

 

Detalhe: além do ingresso comum, que apenas dá acesso ao mirante envidraçado, há pacotes para casais em noites especiais, com direito a jantar romântico e até mesmo hospedagem no hotel Hyatt, que fica na base da Torre.

Uma das atrações que podem ser avistadas facilmente do alto da Reunion Tower é também aquela mais visitada em toda a metrópole: o The Sixth Floor Museum at Dealey Plaza. Trata-se de nada menos que o lugar de onde partiram os tiros que mataram o presidente John Kennedy em 22 de novembro de 1963.

The Sixth Floor Museum at Dealey Plaza

Convertido hoje em dia em um grande museu interativo, o antigo prédio do depósito municipal de livros tem fila diariamente. No sexto andar, a janela onde o assassino Lee Harvey Oswald montou seu rifle é cercada de uma extensa exibição multimídia sobre a vida de Kennedy, o cenário político do dia do crime e o atentado em si.

Há fotos e vídeos da caçada humana que se seguiu ao assassinato, assim como de toda a investigação posterior das teorias conspiratórias que envolveram um dos mais dramáticos acontecimentos da história dos Estados Unidos (e também do mundo, por que não dizer…).

Do lado de fora do prédio, o local exato onde a limusine conversível de Kennedy estava no momento dos tiros fica sempre repleto de turistas fotografando cada centímetro. Eles também se espalham pelo jardim chamado Grassy Knoll, famoso pelas especulações de que dali teriam partido balas de um segundo atirador no dia fatídico.

Curiosidade: os moradores de Dallas, normalmente simpáticos, não hesitam em meter a mão na buzina do carro quando algum turista desavisado se posiciona no meio da rua em busca do melhor ângulo para fotos. Fica a dica: cuidado para não ser atropelado!

Olha o carro!

Arte na terra dos Cowboys

Dallas tem muito mais. Dirigindo meio sem rumo pela região de downtown, deparei-me com um palácio suntuoso, de cor avermelhada, e decidi parar para checar. É o Old Red Museum, a antiga corte de justiça, transformada recentemente em centro cultural e museu.

Old Red Museum

Em meio aos arranha-céus futuristas, essa construção de 1892 é uma dos mais lindos exemplos do estilo arquitetônico chamado de “românico-richardsoniano”. Ele impressiona justamente porque não há muitos prédios assim mundo afora. Por dentro, a coleção de artigos históricos interessa mais aos americanos que aos turistas estrangeiros, mas vale uma olhada.

Igualmente impressionante é a Winspear Opera House, o auditório onde se apresentam as renomadas companhias de ópera e balé de Dallas. Ao contrário do que é comum se ver por aí, este é um prédio ultramoderno, com design ousado e arejado.

Winspear Opera House

Por sinal, mesmo que você não esteja no clima para assistir a espetáculos de arte erudita, vale a pena guardar o carro numa das garagens do bairro e explorá-lo a pé. Porque o Arts District é repleto de obras primas em forma de edifícios, incluindo desde o singelo Nasher Sculpture Center (dedicado à arte da escultura) até o magnífico Dallas Museum of Art (“DMA”, como os locais chamam), com seu acervo de mais de 24 mil quadros e instalações, originários de todos os continentes. Tem Monet, Gauguin, Giacometti, Mondrian, Pollock… É artista famoso para crítico nenhum botar defeito, com o perdão do clichê.

 

Ok, eu sei, o programa está intelectual demais… Então vamos às compras! Dallas também tem essa face consumista, bem ao gosto do viajante brazuca. Eu, particularmente, gostei dos grandes outlets que ficam fora da cidade, mas de muito fácil acesso pelas vias expressas.

Uma excelente opção é o Grand Prairie Premium Outlets, a 25 minutos do centro, São 110 lojas com descontos de 25% a 65% todos os dias. Tem marcas como Banana Republic, Bloomingdale’s, Brooks Brothers, Coach, Kenneth Cole, Saks Fifth Avenue, Talbots, Tommy Hilfiger e muito mais.

Outro outlet para brasileiro se esbaldar é o Allen Premium Outlets, da rede Simon. Ele tem 100 lojas, incluindo Michael Kors, Nike Factory Store, Polo Ralph Lauren, Under Armour, Adidas e Neiman Marcus. E, em ambos os casos, há diversas opções de restaurantes e fast foods bem ao lado dos outlets – o que permite gastar boa parte do dia esmiuçando as promoções.

Por falar em comida, é difícil escolher entre tantas boas alternativas no Main Street District – a região central da cidade. De hamburguerias informais a restaurantes cheios de classe, tudo fica fácil de achar com uma boa caminhada na Commerce Street, na Main Street ou na Elm Street.

Uma dica é o The Lounge, instalado dentro do Hotel Magnolia. A construção dos anos 1930 em estilo art decó já cria um clima todo especial. E o restaurante em si, apesar do cardápio enxuto, tem delícias como Grilled Wagyu Ribeye – um baita steak de carne do gado da raça wagyu (supermacia!), preparada com vinho tinto californiano e cebolas glaciadas.

Se quiser algo mais informal – mas fora do trivial -, a dica é o Rodeo Goat. Essa lanchonete inovou ao montar diversos sanduíches com ingredientes incomuns – eu sugiro o “chupacabra”, feito com chorizo, queijo de cabra, jalapeños fritos e guacamole. Inesquecível.

“Mas e o futebol americano, Mancha???” Claro que eu visitei dois lugares icônicos do esporte que amo.

O primeiro foi o Cotton Bowl, estádio construído em 1932 que, por um bom tempo, entre 1960 a 1971, foi a casa do Dallas Cowboys. Aliás, ele também abrigou jogos do Dallas Texans entre 1960 e 1962. Se você não sabe que time é esse, vou dar uma dica: ele mudou de cidade – foi para Kansas City – e de nome… Sim, os Chiefs!

(Na verdade, houve mais um “Dallas Texans”, em 1952, sem relação com esse, como você pode ver no meu livro “Os Guerreiros da NFL“. Mas isso é outra história…)

O Cotton Bowl é ainda um ícone da história do college football, com seus 68 mil lugares. Ele sediou também seis jogos da Copa do Mundo de 1994, inclusive Brasil e Holanda, nas quartas de final.

Vale dizer que o estádio faz parte do Fair Park, um enorme parque, repleto de museus, feirinhas, áreas verdes e obras de arte no estilo decó – uma coleção a céu aberto, bacana!

Minha segunda e última parada esportiva foi no espetacular AT&T Stadium, a casa do Dallas Cowboys. Em vez de escrever sobre ele, prefiro terminar esta reportagem com o vídeo que fiz no tour guiado por essa obra prima da engenharia (e do esporte)… Clique abaixo e assista!


Veja a parte 1 (Austin)
Em breve, a parte 3 (Houston)!