Aruba: encontro de Caribe e Holanda

Não bastassem as praias belíssimas, a pequena ilha de colonização holandesa tem também agitos, compras, cassinos e uma qualidade de vida invejável

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Adaptação da reportagem que fiz para a Revista Viajar pelo Mundo

Dizer que Aruba é um lugar bonito não é argumento para convencer ninguém a viajar para lá. Afinal, beleza natural é o que não falta no Caribe. Então, o que levaria os turistas a cada vez mais escolher essa pequena ilha como seu destino de férias, em detrimento de todas as outras dezenas de arquipélagos que compõem o mapa da região? A resposta é fácil: todo o resto. Quer fazer compras? Lá tem desde shopping centers de primeira categoria até feirinhas de artesanato, tudo com produtos da melhor qualidade. Curte gastronomia? A ilha é considerada o maior polo culinário do Caribe, em face da enorme quantidade de imigrantes, de mais de 90 nacionalidades. Gosta de aventura? É um dos melhores lugares do mundo para esportes como kitesurfe, mergulho e off-road. Aliás, dá até pra andar de submarino. Ama agitos e baladas? Há cassinos e uma infinidade de bares, cheios de gente jovem, por todo lado. Adicione a esses motivos ainda a melhor qualidade de vida do Caribe (pobreza, criminalidade e analfabetismo são quase zero) e você terá um pequeno paraíso.

Para os brasileiros, há razões adicionais. Aruba fica a apenas seis horas e meia de voo de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Faz parte do chamado “ABC caribenho”, o trio de ilhotas colonizadas por holandeses, cujos nomes começam com essas três letras – Aruba, Bonaire e Curaçao. Além disso, está fora da rota dos furacões, o que permite ir lá durante o ano todo. E não é nem sequer preciso trocar seus dólares pela moeda local, o florim: todos os estabelecimentos comerciais aceitam o dinheiro do Tio Sam.

Geografia insólita – Antes de tudo, vale a pena explicar a geografia da ilha, para entender os porquês de muitos de seus encantos. Ela tem apenas 193 quilômetros quadrados – menos que a metade da área de Florianópolis, por exemplo. Mas, por ser alongada, exibe duas grandes costas, com muitas diferenças entre si.

A costa sudoeste fica voltada para o continente e, por isso mesmo, é abrigada, com menos ventos e ondas. Ostenta mar azul-turquesa com águas calmas, transparentes e mornas, banhando languidamente as praias de areias clarinhas. É nessa parte da ilha que estão quase todos os hotéis, cidadezinhas e atrações turísticas feitas pelo homem. Destino certo de famílias com crianças e viajantes a fim de baladas, compras, conforto e luxo.

A costa nordeste, por sua vez, dá de cara com a imensidão do Oceano Atlântico. Por esse motivo, é célebre pelo vento e por seu mar agitado. Ali, há bem menos gente morando; em vez de praias, brotam penhascos e as ondas castigam a natureza de forma dramática. É o reduto dos aventureiros e dos fãs de esportes radicais.

Os ventos persistentes que vêm do oceano originaram o cartão-postal da ilha: as árvores divi-divi, facilmente reconhecíveis por seus troncos “tortos”, quase sempre para o sudoeste.

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Oranjestad, a capital – A ilha tem apenas seis cidades – que os arubanos nem sequer chamam assim, de tão pequenas que são. Preferem o termo “distrito”. A maior delas é a capital, Oranjestad, com apenas 33 mil habitantes. Sim, a população inteira caberia no estádio do Corinthians, o Itaquerão, e ainda sobrariam vazias metade dos 68 mil assentos.

Por ali se destaca a arquitetura colonial holandesa, caracterizada pelas fachadas coloridas. Mas há também construções modernas, como o suntuoso hotel Renaissance, com seu shopping center anexo, repleto de lojas de marcas famosas como Louis Vuitton, Cartier e Gucci.

Quem passa por lá fatalmente se pergunta: onde está a praia do hotel? Isso porque, de fato, não há faixa de areia em frente a ele, mas sim uma marina cheia de iates. Pois bem, os hóspedes descem de elevador diretamente para um atracadouro, de onde, a cada vinte minutos, lanchas velozes os levam a uma ilha particular, longe da agitação do centro. Em Aruba é assim: sempre com luxo e elegância.

A orla de Oranjestad é ideal para passear a pé, apreciando as belas fachadas e aproveitando para fazer compras. Na avenida Lloyd G. Smith Boulevard dá para achar pechinchas em lojas de perfumes, joias, roupas, eletrônicos, bebidas, queijos holandeses e charutos cubanos. Vale dizer que há oito shopping centers na ilha e a maioria tem suas lojas a céu aberto.

Para escapar do sol inclemente, a dica é engalfinhar-se em um dos diversos bares e pedir uma Balashi, a cerveja local, orgulho dos arubanos. Ou aproveitar os petiscos e pratos dos 76 restaurantes da capital. Alguns são simplesmente imperdíveis. Como o Pinchos, instalado num deque à beira-mar e considerado um dos mais românticos lugares da ilha para ver o pôr do sol. O menu traz deliciosos pescados, como a garoupa grelhada com molho de damascos e gengibre, e drinques típicos, como o Aruba Ariba, uma bebida que aparece no copo em fases, com várias cores, graças à adição lenta (sem bater) de vodca, rum, leite de coco, creme de banana, suco de laranja, suco de cranberry e abacaxi.

Melhor de tudo: se você não entender o cardápio, basta chamar a gerente – uma holandesa filha de portugueses, que fala nossa língua com perfeição. A gastronomia, por sinal, é muito peculiar, em razão da variedade étnico-cultural da ilha. Aruba é terra de imigrantes do mundo todo. Os ingredientes típicos da Europa se misturaram aos temperos e iguarias nativos e ainda ganharam reforço com algumas tendências asiáticas…

Quer experimentar pratos que só existem lá? Tente, por exemplo, o keshiyena, uma delícia à base de peito de frango e queijo holandês. Ou, ainda, o pan bati, um tira-gosto feito à base de farinha de milho, amanteigado e adocicado. Você acha ambos tanto nos restaurantes mais chiques quanto nos mais modestos, espalhados pelas vilas do litoral e aldeias de pescadores. No caso destas últimas, a dica é ir ao Zeerover, no distrito de Savanetta, famoso pelos frutos do mar fresquinhos, recém-pescados.

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Praias chiquérrimas – Mais da metade dos turistas que vão a Aruba são norte-americanos. Até o aeroporto Rainha Beatrix tem área de embarque e desembarque exclusiva para eles. Por isso, não faltam cadeias de lojas, fast food e, sobretudo, hotéis dos Estados Unidos. Tudo é feito à moda ianque. Nada menos que 30 resorts se espalham pelas 20 praias da ilha.

A praia mais badalada é Palm Beach, sete quilômetros ao norte da capital, onde prosperam unidades das redes Marriott, Radisson, Hyatt, Westin e também de hotéis mais econômicos, como o Holiday Inn. Ali despontam dezenas de bares e restaurantes (inclusive duas churrascarias brasileiras – a Amazonas e a Texas de Brazil) e o maior shopping center da ilha, o Palm Beach Plaza.

Se a capital tem apelo histórico e hotéis luxuosos, Palm Beach é o lugar da moda, aonde as pessoas vão para ver e serem vistas, onde brotam cassinos (são mais de dez ao todo) e discotecas. E onde o congestionamento à noite gera uma boa paquera.

Ao cair da tarde, turistas costumam lotar os party-buses – ônibus transformados em baladas ambulantes, que vagueiam de Oranjestad a Palm Beach com música, bebida e animação. Os mais famosos são o KukooKunuku e o Banana Bus.

Por falar em ônibus, o meio mais em conta de percorrer a ilha é o Arubus, um ônibus circular de boa qualidade, que leva a diversos pontos por apenas US$ 1,50. Isso inclui as turísticas praias de Eagle Beach, Arashi Beach, Boca Catalina e Baby Beach, onde se concentram diversas operadoras de mergulho, bares e quiosques de areia.

Se quiser mais conforto, os táxis também são uma boa pedida. Novos, limpos e com motoristas confiáveis, eles cobram por trecho. Uma ida de Oranjestad a Palm Beach sai por US$ 11. Alugar um carro? Sim, é possível. Mas inclua no pacote o GPS, porque, apesar de diminuta, Aruba é uma ilha com centenas de caminhos se entrelaçando no interior, onde tudo lembra um deserto e é fácil se perder.

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 Papiamento: que língua é essa? – Aruba foi colonizada, inicialmente, pelos espanhóis. Mas era um lugar tão árido que acabou desprezado por eles. Foi abandonada por mais de um século, até chegarem os holandeses, em 1636. Eles passaram a explorar seu mar cheio de riquezas e alguns recursos escondidos no subsolo.

E assim a ilha foi prosperando aos poucos, devagarzinho, por centenas de anos. Fez parte das Antilhas Holandesas até 1986, quando mudou seu status. Hoje é um “território autônomo do Reino dos Países Baixos” – ou seja, um pedaço da Holanda no Caribe. É comum ver a família real holandesa por lá, assim como os craques da seleção de futebol do país europeu – mesmo que os arubanos gostem mesmo é de beisebol, acredite se quiser.

Com um sistema educacional de primeira linha, cópia fiel do holandês, Aruba ensina a suas crianças nada menos que quatro idiomas: holandês, inglês, espanhol e papiamento. Este último é o mais popular de todos. É a língua local, que surgiu da mistura dos outros idiomas. Tem muitas palavras de origem portuguesa também. Para nós, brasileiros, é fácil entender frases escritas em papiamento. Mas ouvir são outros quinhentos… Os arubanos falam tão rápido que parecem estar sempre com pressa. Algo que, definitivamente, não combina com uma terra tão relax…

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A face esportiva – Aruba é um delírio para os fãs de atividades subaquáticas. Não faltam navios submersos na costa e isso garantiu a ela a fama de um dos cinco melhores lugares do mundo no quesito “mergulho de naufrágio”. São 14 grandes barcos (alguns ainda não identificados), que remontam aos tempos das grandes navegações.

E nem é preciso ser um mergulhador tarimbado para curtir as belezas oceânicas. Em muitos locais da costa, pode-se deixar de lado os cilindros de ar comprimido e nadar usando apenas o snorkel para apreciar os destroços, além de peixes, ouriços e corais de rara beleza.

Uma dica para os que não querem fazer muito esforço é o passeio até De Palm Island, uma ilhota transformada em parque temático, com praias artificiais, piscinas, toboágua se locais para prática de mergulho autônomo e snorkel. O passeio de um dia, com comidas e bebidas à vontade, custa US$ 124.

Lá, por US$ 48, é possível experimentar o SeaTrek, um sistema que permite a qualquer pessoa se sentir um mergulhador, sem qualquer treinamento, com um capacete semelhante aos antigos escafandros – só que com tecnologia de ponta. Uma vez com o traje, o turista parte para uma caminhada subaquática acompanhado de instrutores. Ele segue pelo fundo do mar, onde há um ônibus e um avião naufragados propositalmente – além de uma mesa com garrafas de vinho e taças, para aquela divertida foto de recordação.

Achou fake demais? Tudo bem: um mergulho mais autêntico está ao seu alcance, bastando para isso embarcar nos catamarãs da RedSail, empresa que leva aos bancos de corais mais belos e também aos restos do Antilla, um navio alemão gigantesco, naufragado em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial. O passeio dura meio dia e inclui almoço, open bar e material de mergulho (não com cilindros), por US$ 72.

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Deliciosamente selvagem – Também dá para curtir o lado selvagem de Aruba por terra. Vale lembrar que, longe das cidadezinhas e praias badaladas, a paisagem de Aruba é desértica, com vegetação rasteira e cactos, muitos cactos. Também tem pouquíssimas montanhas que, por isso mesmo, destacam-se na paisagem. A mais famosa é a Hooiberg, com 165 metros de altura. Pode não parecer muito, mas ela reina no cenário. É um antigo vulcão, no qual há uma escadaria de 562 degraus levando ao topo. Do alto, dá pra ver até o litoral da Venezuela.

O passeio mais disputado, contudo, é o chamado safári off-road, oferecido em jipes por várias operadoras locais. O trajeto inclui o idílico Farol Califórnia, construído em 1916 no extremo norte, e a pitoresca Capilla Alto Vista – uma igrejinha de 1750, perdida na paisagem agreste do interior da ilha.

Os veículos das operadoras seguem intrepidamente, até passar pelas ruínas das minas de ouro de Bushiribana. Nesse local, uma espécie de fortaleza se ergue à beira dos penhascos que envolvem a face nordeste da ilha, onde o mar quebra com violência, formando um espetáculo natural indescritível – totalmente diverso das prainhas pacíficas do outro lado.

E uma curiosidade: os próprios turistas acabaram criando, ao longo do tempo, outra atração por ali. É o Wish Garden, ou “Jardim dos Desejos”. Trata-se de um “jardim” de pedras empilhadas de forma progressiva: o monte começa com uma grande e vai subindo com pedrinhas cada vez menores. Cada uma delas é colocada cuidadosamente pelos visitantes, representando desejos e pedidos. O resultado visual é belo e intrigante.

Mas quem quer se empolgar com formações rochosas “de verdade” precisa ir ao recanto das natural bridges, as pontes de pedra esculpidas pelas ondas à beira-mar. A maior delas, que por décadas foi um dos símbolos de Aruba, desabou em 2005. Mas uma outra, um pouco menor, continua ali, encantando os visitantes e ensejando fotos românticas de casais apaixonados.

As natural bridges estão no caminho para o Parque Nacional Arikok, uma reserva ecológica de 34 quilômetros quadrados com paisagens desérticas, sítios arqueológicos diversos, antigas minas de ouro e a maior montanha da ilha: o monte Jamanota, com 188 metros acima do nível do mar.

Um passeio pelo Arikokimplica permite explorar cavernas e fotografar iguanas e lagartos – a ilha tem uma enorme população desses animais. Mas imperdível mesmo é ir à piscina natural de Conchi, recanto de águas calmas no agitadíssimo mar do sudoeste da ilha.

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Folclore sem breguice – E para terminar seu tour por essa ilha abençoada, nada mais típico que uma noite na folclórica San Nicolas, no extremo sul. Esse antigo distrito operário, onde fica uma grande refinaria de petróleo (desativada desde o começo deste ano), nunca teve apelo turístico. Apenas um estabelecimento era famoso ali, o descolado Charlie’s Bar – e nada mais. Justamente por isso, o governo de Aruba decidiu criar, recentemente, uma festa semanal, nas noites de quinta, com dança, música, shows de humor e barraquinhas de artesanato e comidas regionais.

A alma caribenha surge e ressurge a cada semana nesse local. Se a refinaria tornava San Nicolas o único lugar desinteressante da ilha, agora não mais. Esta é a sina de Aruba: ficar mais atraente a cada ano que passa.

Fotos: Paulo Mancha

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