JERUSALÉM – Parte 1: Passado encantador

Na semana em que se inicia o Ano Novo Judaico, aproveitamos para mostrar a 1ª parte da reportagem que fizemos em Jerusalém – cidade que atrai cada vez mais brasileiros. Uma excelente pedida para quando a pandemia passar. Confira!

Texto e fotos: Paulo Mancha (exceto quando indicado)

Se você nunca foi para Israel, muito provavelmente tem os mesmos preconceitos bobos que permeavam minha mente antes de, pela primeira vez, pisar no país do Oriente Médio. Para mim, essa terra onde alguns dos mais relevantes fatos históricos da humanidade ocorreram era um lugar belicoso, tenso, com meia dúzia de locações milenares interessantes, mas poeirentas, à moda de um filme de Indiana Jones.

Só não me envergonho mais desse conceito tosco por dois motivos: ele não brotou do nada e eu não estava sozinho nesse pensamento equivocado. Tal (pre)conceito é reinante entre quem só ouve falar do país pelos noticiários da TV – como era o meu caso e, possivelmente, o seu.

Momentos de tensão (só que não… 😆): uma selfie com policiais na Cidade Velha

Por isso, Jerusalém, principal destino turístico do país, foi uma das maiores surpresas que já tive. Lá tem história, sim – e muita! Tem locais sagrados, desertos, muros, rochas e caminhos onde humanos perpassam há mais de três mil anos. Mas também tem modernidade, glamour, sofisticação e paz.

Parmesolino apreciando a Cidade Velha

Sim, amigo leitor do Viajando por Esporte, não se deixe levar pela condensação de negatividade que as notícias fazem. Em minha jornada, me senti muito mais tranquilo do que ao tomar um ônibus em São Paulo ou ao dirigir pelos meandros do Rio de Janeiro.

Legal foi perceber ainda que Jerusalém é também um lugar antenado com o mundo e cheio de vanguarda. Por isso, a seguir, faço minha sugestão para sua viagem, dividindo a cidade sagrada em dois aspectos:  “tradição” e “inovação”.

Ou seja, as atrações turísticas consagradas (e obrigatórias) nesta 1ª parte, assim como aquelas que você nem imaginava que existiam (mas que valem a visita) na 2ª parte, semana que vem.

Vamos lá?


PARTE 1: A JERUSALÉM “TRADIÇÃO”

Antes de tudo, é bom você saber: Jerusalém é grande e antiga. A metrópole tem 900 mil habitantes e mais de 3 mil anos de história incrustada em suas ruas, becos e colinas.

Maquete da cidade na prefeitura de Jerusalém

Para conhecê-la de forma plena, você precisaria ficar ali por, no mínimo, uma semana – sobretudo se é fã de história e religião. Só de museus, há 60 para visitar. No total, são mais de 200 atrações entre marcos históricos, templos, sinagogas, mesquitas, palácios, galerias de arte, mercados…

Como a realidade do viajante brasileiro é, em geral, gastar uma semana para o país inteiro, minha dica é ir diretamente ao que é obrigatório: a Cidade Velha. Assim é conhecida a porção milenar delimitada por muralhas, no lado oriental do município.

A Cidade Velha remonta a 3 milênios atrás e contém alguns dos mais sagrados redutos das três grandes religiões monoteístas do mundo: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo.

E não se engane: mesmo para os ateus, como eu, é um lugar fascinante. Basta ter a mente aberta e focar na incrível história contida em cada centímetro da cidade.

Apesar de sua diversidade de atrações, dá para visitá-la a pé, desde que você disponha de um dia inteiro para isso. Ou dois, se preferir fazer as coisas com calma e evitar uma desidratação – o calor pode ser sufocante no verão, entre junho e setembro, época em que estive por lá.

Ela é dividida em quatro setores: Armênio, Cristão, Muçulmano e Judeu. É a Jerusalém original, bíblica, preservada e pra lá de mística. Seja você de qual religião for – ou mesmo de nenhuma – vai se encantar com a atmosfera e o visual deste lugar.

Você pode entrar na Cidade Velha por um dos sete portões que a circundam. Há um oitavo, o Portão Dourado, que fica fechado – é reservado, segundo o Judaísmo, para a passagem do Messias, quando ele vier. Os islâmicos acreditam que por ali chegarão os homens salvos da perdição no dia do Juízo Final. Já os cristãos consideram-no sagrado por ter sido o local de entrada de Jesus Cristo na cidade em seus últimos dias.

Eu recomendo o Portão de Jaffa – próximo dos bairros mais novos, onde ficam os hotéis em geral. Logo na entrada, você dá de cara com a imponente Cidadela, também chamada de Torre de David. A pequena fortaleza abriga um museu histórico, jardins e um auditório ao ar livre onde ocorrem recitais, concertos e apresentações artísticas diversas.

TODAS AS RELIGIÕES JUNTAS

Uma vez cruzado o portão, o primeiro setor é o armênio, à direita. Ali, o destaque é a Catedral de São Tiago (St. James, em inglês), construída no século 12, em homenagem a dois santos: São Tiago Maior e São Tiago, o Justo. A sede do patriarcado da Igreja Ortodoxa Armênia fica neste local e é famosa pelo seu coral, que se apresenta diariamente às 15h.

Se você for para o lado esquerdo, ao entrar pelo Portão de Jaffa, vai se deparar com o Bairro Cristão. Coalhado de igrejas e capelas, ele é repleto de vielas e becos, entremeados pela Via Dolorosa, o caminho por onde Jesus passou enquanto carregava a cruz, segundo a crença cristã.

O percurso vive cheio de peregrinos, que entoam cânticos e carregam imagens. Não bastasse isso, você pode ainda apreciar as belas igrejas do Redentor e de São João Batista.

Mas o ápice de sua passagem pelo bairro cristão será na Igreja do Santo Sepulcro. Nesse lugar acredita-se que Jesus Cristo tenha sido crucificado e sepultado – e que ali tenha ressuscitado.

A construção foi refeita diversas vezes ao longo do tempo e o prédio atual data do Século 12. A sensação é bastante forte ao visitar a rocha do Gólgota – onde teria sido cravada a cruz de Jesus Cristo, sobretudo devido às demonstrações de fé dos romeiros. O mesmo ocorre no local do sepultamento, que no século I era uma pequena gruta, em torno da qual a igreja foi construída séculos depois.

Tão impressionante quanto a Igreja do Santo Sepulcro é o Muro das Lamentações, no bairro judeu. Conhecido em inglês como Western Wall, ele é a grande parede remanescente do Segundo Templo – o templo erguido após o regresso dos judeus que escaparam da escravidão na Babilônia. Este é o local mais sagrado da fé judaica e o ponto mais visitado por turistas em Jerusalém.

Assim como no Santo Sepulcro, há todo um misticismo e um clima intenso de veneração que emociona os mais religiosos e provoca admiração mesmo em quem não crê. É uma experiência única acompanhar as orações ritmadas e o ato de colocar bilhetes nos vãos das pedras que compõem o muro.

PARA FÃS DE ARQUEOLOGIA

Se você é um fã de história e arqueologia, o passo seguinte é visitar o Western Wall Tunnel. Esse é um passeio absolutamente incrível, pelos subterrâneos próximos ao muro – vale lembrar que, do outro lado, fica o Monte do Templo, a inexpugnável porção islâmica desse solo sagrado, onde não muçulmanos têm algumas restrições de datas e horários para entrar (consulte o serviço de informações turísticas).

Enquanto a parte do Muro das Lamentações que fica na superfície tem pouco mais de 60 metros de comprimento, a porção subterrânea supera 400 metros. É repleta de sítios arqueológicos e pontos notáveis da fé judaica.

O Monte do Templo, sob domínio islâmico, é fechado à visitação de não muçulmanos. Ainda assim, de diversos pontos da Cidade Velha você tem bons ângulos para fotografar as colossais construções conhecidas como Mesquita de Al Aqsa e o Domo da Rocha.

Apesar dessa proibição, outros pontos do Bairro Muçulmano são abertos para ocidentais. Inclusive o Souq – palavra que designa o grande mercado a céu aberto, colorido, barulhento e vibrante.

Fora da Cidade Velha, há ainda o Monte das Oliveiras com seu mirante; o templo de Maria Madalena (pertencente Igreja Ortodoxa Russa), o Túmulo de Absalão, num antigo cemitério judaico de dois mil anos, e diversas outras igrejas de características marcantes, como a de Getsêmani. Sem falar nos milenares bairros da Cidade de David e do Vale de Kidron.


Na próxima semana, a 2ª parte: o lado moderno e cool de Jerusalém!