Yukon: o Canadá que você não conhecia

Fomos desbravar um dos lugares mais remotos da América do Norte, vizinho ao Alasca. Território de ursos, povos nativos fascinantes e cenários naturais singulares

Fotos e vídeos por Paulo Mancha ©

Durante o voo de duas horas rumo ao norte, desde Vancouver, a curiosidade aumentava na mesma medida da latitude. Apesar de já ter visitado o Canadá diversas vezes, eu não sabia quase nada sobre Yukon.

“Tudo bem, quase ninguém sabe muito sobre nós”, disse meu guia, Stephen, enquanto eu o bombardeava com perguntas, já em solo, no caminho do pequeno aeroporto de Whitehorse até o Gold Rush Inn, o charmoso hotel onde me hospedei por quatro dias.

De fato, Yukon é pouco familiar mesmo aos canadenses, que raras vezes saem da faixa populosa do Sul do país para visitar o Norte. Um equívoco imperdoável, como eu viria a constatar a seguir.

Esta é uma terra de emoções inconfundíveis, como a de ver o Sol à meia-noite no verão, embasbacar-se com a aurora boreal no inverno e pousar de avião numa geleira em qualquer época do ano. Ou, ainda, encontrar um urso no meio da estrada.

DUVIDA? VEJA O VÍDEO:

O território de Yukon é gigante, com duas vezes o tamanho do estado de São Paulo. Fica tão ao Norte que beija o Círculo Polar Ártico. Apesar do tamanho colossal, vivem ali menos de 38 mil pessoas (elas caberiam todas no Estádio do Engenhão, no Rio de Janeiro). Você encontra natureza exuberante, muita história e uma infraestrutura turística surpreendente.

História no fim do mundo – Minha jornada começou pela própria Whitehorse, a capital. Com 27 mil habitantes, ela tem ruas amplas, dispostas de forma bem organizada, ao largo do Rio Yukon, a artéria pela qual o progresso chegou outrora.

Construções históricas, como o próprio Gold Rush Inn, remontam a uma era de ouro – literalmente falando. Ou seja, ao período entre 1896 e 1899, quando mais de 100 mil aventureiros vieram de todas as partes da América do Norte em busca das jazidas de ouro e outros minerais preciosos – evento que ganhou o nome de Corrida do Ouro de Klondike.

Não faltam referências a esses tempos insanos em singelos museus como o Copperbelt Railway & Mining Museum ou seu primo mais famoso, o McBride Museum of Yukon History.

Navio-museu Klondike, em Whitehorse – Yukon

Há também marcos da riqueza que perdurou pelas décadas seguintes, como o SS Klondike, um navio de 1929 que hoje está em terra, convertido em museu. O Klondike lembra muito aqueles vapores de roda do Rio Mississipi, nos EUA. Com diferença de que navegava em águas geladas, transportando mantimentos e pessoas entre Whitehorse e as minas, em pontos remotos e inóspitos do noroeste do Canadá.

Que tal pousar numa geleira? Aliás, haja pontos remotos e inóspitos! A maioria é hoje em dia alvo do turismo. Como as Montanhas Saint Elias, quase na fronteira com o Alasca. Essa região de paisagens selvagens e dramáticas é um dos lugares mais difíceis de atingir do planeta. Ou era, até que as companhias de voos panorâmicos trouxessem seus aviões para cá.

Eu experimentei o passeio de uma dessas empresas, a Icefield Discovery, que leva os visitantes a um sobrevoo eletrizante pelas Montanhas Rochosas e a um pouso não menos arrebatador no glaciar Hubbard – o maior campo de gelo não-polar do mundo.

Voando para o maior campo de gelo não polar do mundo

Tudo é feito a bordo de um monomotor para seis passageiros, com esquis para neve em vez de rodas, pilotado com destreza por aviadores experientes. Afinal, não é nada fácil enfrentar o chamado vento catabático – aquele que se forma nas áreas mais altas das montanhas, a mais de 4 mil metros, e desce acompanhando o relevo, de forma pouco previsível.

A emoção do voo de meia hora, somada à sensação de isolamento após o pouso na geleira, é algo absolutamente inesquecível. E a cereja do bolo é ver no horizonte, ali pertinho, o Monte Logan, ponto culminante de todo o Canadá, com seus 5.959 metros de altitude.

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Aventura rio abaixo – Achou a aventura bacana? Há muito mais. A descida do Rio Yukon numa canoa, por exemplo, é oferecida por várias operadoras locais, como a Up North Adventures. Ou a visita ao Yukon Wildlife Preserve.

Este último é um parque onde o visitante pode avistar nada menos que 13 espécies de animais selvagens característicos do norte do Canadá. Tem alces majestosos, simpáticos caribus, as espertas raposinhas do ártico, com sua inconfundível pelagem branca, e o enigmático lince canadense – o único felino que pode ser encontrado além do Círculo Polar Ártico.

Há passeios de van, cavalo, bicicleta, a pé ou, no inverno, de esquis. E não raro, no caminho para a reserva, você se depara com ursos cruzando a estrada. Ali, afinal, é o território deles, não o nosso.

Seja no meio do dia ou à noite, o fim da aventura é um afago no paladar, em restaurantes como o Birch + Bear, especializado em comida natural, mas com receitas inventivas, que incluem wraps e sanduíches descolados. Tem cervejas locais, vale lembrar.

Um prato cheio de parmesão… Canibalismo?

Ou, ainda, no Giorgio’s Cuccina, restaurante de inspiração italiana, mas com muitos pratos regionais, sobretudo os peixes e frutos do mar da costa oeste do Canadá.

Outro lugar interessantíssimo é o Antoinette’s, um restaurante que mistura, acredite se quiser, a culinária ártica à caribenha, graças a sua proprietária Antoinette GreenOliph, que nasceu e cresceu em Trinidad & Tobago. Que tal um hambúrguer de bisão com molho de goiaba? Dá pra pedir ali.

Um trem para o passado – Um dos momentos mais marcantes da jornada por esse território canadense tão remoto foi a viagem pela ferrovia White Pass & Yukon Route – histórica rota famosa pela Corrida do Ouro. O passeio em um trem de época vai de Skagway, no Alasca, até Whitehorse, em Yukon, cruzando também parte da província de British Columbia.

Não bastasse o romantismo do trem em si, as imagens são inigualáveis, com bosques, montanhas nevadas, lagos a perder de vista e até represas feitas por castores.

Ferrovia White Pass & Yukon Route

Isso sem falar em recantos históricos com a cidade-fantasma de Bennett – um dos principais pontos de apoio dos aventureiros da Corrida do Ouro, no final do Século XIX. Ali ficava o Arctic Hotel, um dos primeiros empreendimentos de Friedrich Trump, avô de ninguém menos que o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Desci do trem no vilarejo de Carcross, notório por duas atrações completamente diversas. A primeira é uma curiosidade geográfica. Ali fica o “menor deserto do mundo”. Na verdade, o Deserto de Carcross” é um acúmulo de dunas de areia no meio da natureza verdejante de Yukon.

O menor deserto do mundo!

Confesso que é uma visão muito surpreendente a de um deserto a la Saara bem no meio da floresta de um território quase polar… A visita, porém, é rápida, já que tem pouco mais de um quilômetro quadrado – um terço do Parque do Ibirapuera, em SP.

A segunda atração é seu enorme centro de artesanato dedicado aos povos nativos. Por sinal, no Yukon do Século XXI, é flagrante o esforço de resgate da cultura indígena. Ou melhor, das “first nations” (“nações pioneiras”), como eles respeitosamente chamam as diversas tribos locais.

Orgulho das “first nations”- Praticamente todos os povoados têm um centro de tradições das nações pioneiras. Em Whitehorse, onde comecei e terminei minha jornada, não poderia ser diferente. Ali está o Kwanlin Dun Cultural Centre, um enorme pavilhão de exposições e atividades que ferve em julho, quando se realiza o Adaka Cultural Festival.

Festival Adaka: a grande celebração mundial de povos nativos

Na celebração que presenciei, o tema central foi o resgate da arte de construção naval. Entre espetáculos de música e dança, diversas etnias elaboraram projetos e fabricaram canoas dos mais variados tipos – desde as feitas com peles de foca, típicas dos esquimós, até as esculpidas em enormes troncos de madeira, dos povos originários do Sul do Canadá.

Mais do que isso, o festival Adaka prega a integração de povos nativos do mundo todo. Assim, dentre os artesãos, havia uma delegação da nação Maori, da distante Nova Zelândia. Eles construíram seu barco, navegaram ao lado dos canadenses pelo Rio Yukon e protagonizaram uma espetacular apresentação de dança em conjunto com as nações pioneiras de Yukon.

Uma festa empolgante, mesmo para quem nunca foi lá muito fã do tema. No final, eu, um paulistano da gema, fã confesso de megalópoles como Nova York e Londres, me vi batendo papo sobre canoas caiçaras de Ubatuba (SP) com um artesão da nação Tlingit, enquanto ele finalizava seu barco moldado com couro de alce. Yukon tem um espírito próprio, e ele contagia a todos.


DICAS DO PARMESOLINO

Como sempre, Parmesolino só na aba do chapéu dos outros…


GRANA…
 Dólar canadense ($).  $ 1 = R$ 4,06. “Mas vê se troca em Vancouver, porque achar um câmbio aqui é mais difícil que achar salada no prato do Mancha”, diz nosso mascote metido a nutricionista…

RELÓGIO…  Yukon tem 4 horas a menos que Brasília. “E, se você for no verão, quase nunca escurece; no inverno, é noite o dia todo… ou algo assim”, alerta o cão geógrafo.

BUROCRACIAS… Brasileiro não precisa de visto de turista nem vacina. “Mas humanos têm que preencher e pagar uma bagaça chamada Electronic Travel Authorization (eTA) no site cic.gc.ca. E, durante a pandemia do %&%$#@ do coronavírus, brasileiros não podem ir para lá… 🙁”

Refletindo sobre o sentido da vida… ou tentando achar um peixinho pra devorar!

VAI NEVAR? O inverno de Yukon é muito rigoroso, com temperaturas que chegam a 30º C abaixo de zero. No verão (entre junho e agosto), além do clima mais agradável, há diversos eventos e o sol-da-meia-noite. “É muito louco ir pra lá na primavera ou no outono, porque tem uns bagulhos coloridos no céu”, recomenda nosso mascote, referindo-se, provavelmente, à Aurora Boreal.

SURFA AÍ… travelyukon.com

DETALHE CURIOSO: “Tem um monte de aumigos meus pelas ruas de Whitehorse! Olha o humano aí dando vexame com eles...