Pittsburgh: o legítimo “American way of life”

Visitamos a cidade que é a antítese de Miami, Nova York ou Los Angeles. Genuinamente americana, ela merece muito ser visitada – sobretudo pelos fãs de esportes!

Lá não tem parque temático nem hordas de turistas. Nada de monumentos muito famosos com filas intermináveis de visitantes. Nenhum voo direto do Brasil nem outlet com vendedores falando português. Tudo é muito mais barato que na Flórida ou em Nova York. Sim, Pittsburgh é a antítese dos destinos turísticos tradicionais dos Estados Unidos.

Ainda bem! Assim você pode variar um pouco e ter um gostinho diferente na sua viagem – do país que os próprios americanos costumam curtir, repleto de cultura, gastronomia típica e paixão esportiva.

Durante décadas, essa metrópole do estado da Pensilvânia cultivou a imagem de “cidade operária”, repleta de siderúrgicas e paisagens austeras. Veio a decadência das indústrias de base e, por incrível que pareça, tudo melhorou.

Armazéns viraram sedes de empresas de tecnologia como Apple, Bosch, Uber, Nokia ou IBM. Usinas deram lugar a museus. Bairros operários ganharam shopping centers, baladas, arenas esportivas e restaurantes.

O que restou daquela cinzenta “Idade do Aço” foram as belas pontes debruçadas sobre os três rios que permeiam a urbe. Acredite ou não, elas totalizam 446 – três a mais do que você encontra em Veneza, na Itália.

Não é à toa que a jornalista americana Carrie Goldberg, editora da revista Harper’s Bazaar, lançou em 2017 um guia intitulado: “Pittsburgh – a cidade mais subestimada dos Estados Unidos”.

Basta uma visita ao bairro de Mount Washington para compreender como essa metrópole de 2,3 milhões de habitantes é encantadora hoje em dia. Dá pra ir de carro, mas o legal mesmo é aventura-se no Duquesne Incline, o bondinho vermelho no estilo funicular, implantado em 1877, e que até hoje leva turistas e mais turistas aos mirantes 160 metros acima do restante da área urbana.

O Duquesne Incline é um símbolo tão forte que figura em diversos filmes famosos, como Flashdance (1983) e 72 Horas (2010). Na estação de chegada, no alto do bairro, o visitante encontra os mirantes da Grandview Avenue, de onde é possível fazer as fotos mais bacanas e completas da cidade, lá embaixo.

Parmesolino curtiu os mirantes da Grandview Avenue

Esse não é o único ponto de vista privilegiado. Há um outro que surpreende também por sua inerente beleza: a Cathedral of Learning (“Catedral do Aprendizado”, em português).

A torre de 163 metros de altura, erguida entre 1926 e 1937, é um dos mais belos exemplares de arquitetura neogótica das Américas. Com seu perfil afilado e imponente, tornou-se um ícone local e foi declarada patrimônio histórico dos Estados Unidos.

Ela impressiona por dentro também: ocupada até o topo por mais de 60 salas de aula e bibliotecas da Universidade de Pittsburgh, é uma verdadeira obra de arte, com sua nave central que lembra uma igreja (daí o nome) e seus ambientes de decoração suntuosa, plena de lustres de cristal, tapeçarias raras, afrescos e móveis de época.

São 42 andares abertos à visitação (gratuita, vale dizer). Por isso, não raro se vê, numa mesma sala, lado a lado, acadêmicos enfurnados em livros e turistas admirando a paisagem pelos amplos janelões. Uma mistura curiosa e divertida.

Aos pés da “catedral”, está o Soldiers and Sailors Memorial Hall, o maior memorial dos Estados Unidos dedicado exclusivamente aos veteranos de guerra.

Construído em 1890, ele é tombado pelo patrimônio histórico e cultural. Sua fachada tornou-se, com o tempo, lugar preferido de estadistas para grandes discursos. Nelson Mandela, Barack Obama e Donald Trump estão entre os que usaram o memorial como palco de suas preleções, visando o público universitário que por ali circula.

Por falar em estudantes, em Pittsburgh fica um dos melhores museus de ciências dos Estados Unidos: o Carnegie Science Center, que já foi até premiado em 2003 numa solenidade na Casa Branca.

Dedicado especialmente à criançada, ele se divide em nove grandes áreas com muitas experiências e desafios para a gurizada arriscar – desde utilizar as leis da Física para construir um arco de pedra à moda da Antiguidade até operar uma represa em miniatura, com água de verdade passando pelas comportas.

Para os mais velhos, o museu reserva uma atração mundialmente famosa: o Roboworld – maior mostra permanente de autômatos do mundo, onde fica o Hall da Fama dos Robôs.

Ali estão exemplares de verdade assim como aqueles fictícios, que entraram para o imaginário coletivo via Hollywood: os simpáticos R2-D2 e C-3PO, de Guerra nas Estrelas, o assustador T-800, de O Exterminador do Futuro, o enigmático HAL 9000, de 2001, Uma Odisseia no Espaço, e muitos mais.

A visita ao Carnegie Science Center se completa com uma passadinha pelo USS Requin, um legítimo submarino da Segunda Guerra Mundial, que fica fundeado em frente ao museu, na margem do Rio Ohio. O tour está incluso no ingresso e é imperdível – exceto para os claustrofóbicos…

O Carnegie Science Center empolga geeks e nerds. Já os hipsters amam o Andy Warhol Museum – maior museu dos Estados Unidos dedicado a um único artista. Warhol, que nasceu, cresceu e fez faculdade em Pittsburgh, foi um dos mais importantes difusores da “arte pop” nos anos 1960 e 70. A galeria exibe mais de 900 obras, espalhadas por sete andares de um antigo armazém industrial.

O espírito sui generis do famoso artista parece estar presente por toda a metrópole. Vide o Bicycle Heaven, um antigo galpão de uma siderúrgica que hoje abriga a maior coleção de bicicletas do planeta.

São nada menos que 3 mil exemplares de todos os tipos e épocas, desde o Século XIX até os dias atuais. Mas nada muito organizadinho, não. O lugar é um divertido caos de cores e formas, que funciona ainda como oficina, antiquário e loja de suvenires.

Não muito longe dali, você acha outra “instituição” da cidade: o restaurante Primanti Brothers. Criado para alimentar os pobres durante a Grande Depressão, nos anos 1930, virou mania nas décadas seguintes, sobretudo graças aos fartos sanduíches, como o portentoso Pastrami & Cheese (vendido por meros US$ 7,39).

Celebridades são frequentemente vistas por lá, comendo às vezes de pé, sem frescura. Recentemente, Barack Obama aproveitou a liberdade da condição de ex-presidente para chegar sem (muitos) seguranças e traçar o sanduba como um cidadão comum.

Outro sanduíche célebre é o “#7 Roethlisburger”, da Peppi’s Old Tyme Sandwich Shoppe, uma lanchonete com quatro unidades, uma delas pegada ao Heinz Field, o estádio do Pittsburgh Steelers, o time de futebol americano da cidade. O nome do lanche é uma homenagem ao quarterback Ben Roethlisberger, jogador mais famoso da equipe.

E por falar em futebol americano, nenhuma viagem a Pittsburgh é completa sem uma visita aos seus redutos esportivos. Nesse ponto, seus habitantes têm algo em comum com os de São Paulo: um ídolo do esporte que morreu de forma trágica e ganhou homenagens pelas ruas e avenidas. Assim como temos Ayrton Senna, eles têm Roberto Clemente.

Estátua de Roberto Clemente e a ponte que leva seu nome

O porto-riquenho foi um dos maiores jogadores de beisebol da História e fez toda sua carreira no time dos Pirates. No auge da fama, em 1972, faleceu em um acidente de avião enquanto levava ajuda humanitária às vítimas de um terremoto na Nicarágua.

O choque da perda levou a prefeitura a imortalizar Clemente, dando seu nome à mais bonita ponte sobre o Rio Allegheny, bem no coração da cidade. Há estátuas espalhadas pelas ruas, assim como um museu dedicado especialmente ao astro. Tudo bem pertinho do PNC Park, o estádio de beisebol onde ele atuava. Um tour guiado revela a saga do ídolo, difundida de forma emocionada pelos guias locais.

O futebol americano também é uma febre. Afinal, os Steelers são a equipe que mais venceu Super Bowls, ao lado dos Patriots: seis taças para cada um. Ver um jogo no Heinz Field é obrigatório para entender a alma dos habitantes locais.

Seja no estádio de beisebol, no de Hóquei (a PPG Paints Arena, dos Penguins) ou no de futebol americano (o Heinz Field, dos Steelers), os habitantes de Pittsburgh externam uma paixão quente como as forjas das antigas siderúrgicas e resistente como o aço que saía delas. A vocação industrial pode ter ficado no passado, mas aquele jeito duro e bonachão da classe média ianque dos anos 1950 e 60 ainda vive nestes recantos mais afastados do burburinho turístico. Vale a pena viver e conhecer.


PS: Veja as reportagens em vídeo que fiz num jogo dos Penguins e no estádio dos Pirates:



DICAS DO MANCHA

QUANDO IR
O período mais agradável é a primavera, entre abril e junho, quando a vegetação dos inúmeros parques fica florida e diversos festivais culturais tomam conta da cidade. O outono, entre setembro e dezembro, também é agradável (e tem jogos da NFL!). Neva e faz muito frio de dezembro a fevereiro.

TRANSPORTE
É bastante fácil dirigir por lá, ainda que nas áreas centrais seja difícil achar vagas gratuitas para estacionar. A maioria das atrações fica perto do centro e dá para caminhar entre elas. Quem preferir o transporte público tem boas opções: há um amplo sistema de ônibus e metrô (o “T”), com passagens individuais a US$ 2,50 – consulte portauthority.org.

ONDE COMER

Primanti Brothers O restaurante criado para alimentar os pobres durante a Grande Depressão, nos anos 1930, virou uma badalada cadeia de lanchonetes, famosa por seus sanduíches fartos, repletos de frios e embutidos, com inspiração europeia. A unidade original é a mais bacana de visitar. 46 18th Street Pittsburgh, PA 15222, primantibros.com.

Altius Localizado na parte mais alta do Monte Washington (daí o nome), este restaurante tem uma vista panorâmica que vale a visita por si só. O menu é intrincado e com influências do mundo todo. Destacam-se as vieiras à moda de Hokkaido (Japão) e o cordeiro australiano, servido com nhoque de ervas e queijo de cabra. 1230 Grandview Avenue, Pittsburgh, PA 15211, altiuspgh.com.

Pork & Beans Lugar de aspecto rústico, mas com o melhor barbecue que já comi nos EUA! Público jovem, drinques inovativos e boa localização. Não deixe de provar o brisket, que é grelhado em fogo baixo e derrete na boca…. 136 6th St, Pittsburgh,,PA 15222, porkandbeanspgh.com


PREÇOS E SITES:

Duquesne Incline 1197 West Carson Street, Pittsburgh, PA 15219, duquesneincline.org, US$ 3,50

Cathedral of Learning 4200 Fifth Ave, Pittsburgh, PA 15260, tour.pitt.edu/tour/cathedral-learning, entrada gratuita

Soldiers and Sailors Memorial Hall General Matthew Ridgway Ave., Pittsburgh, PA 15213, soldiersandsailorshall.org, US$ 10

Carnegie Science Center 1 Allegheny Ave, Pittsburgh, PA 15212, carnegiesciencecenter.org, US$ 28

Andy Warhol Museum 117 Sandusky St, Pittsburgh, PA 15212, warhol.org, US$ 20

Bicycle Heaven 1800 Preble Ave, Pittsburgh, PA 15233, bicycleheaven.org, entrada gratuita

PNC Park Tour 115 Federal St, Pittsburgh, PA 15212, m.mlb.com/pirates/tickets/info/pnc-park-tours, US$ 10


Saiba mais: visitpittsburgh.com